A MÃO DA MILITÂNCIA

 

Dias desses, vi no twitter um comentário sobre ‘pessoas que mandam mensagem de voz logo no primeiro contato’.
Dali a pouco, o que aparecem são surdos e mudos reclamando que sofrem com este problema pois, segundo um dos comentários, muitas vezes não são levados a sério pela outra pessoa que mandou a mensagem, já que esta por sua vez, não acredita que tais surdos e/ou mudos não ‘querem’ responder’ (uma vez que não conseguiram ouvir o áudio ou responder).

Nesta situação específica, o que temos? Descredibilização de uma minoria ou problema cotidiano?
Não precisamos de conclusão por hora, ainda não chegamos lá.

O que fica claro é: o comentário pode até ter sido sobre a ‘audácia (?)’ de se mandar uma mensagem de voz logo de primeira pra alguém que você não conhece, e no rebote, rebateu nas dificuldades de surdos-mudos com mensagens de áudio e pessoas não as credibilizando como portadores dessa condição.

Pode parecer uma coisa meio louca, mas é assim que grandes discussões tem surgido na internet, pra depois ganharem a mídia. O assunto é esmiuçado em demasia, aparecem ‘fios’ ou as ‘threads’ como quiserem chamar. Na rabeira, também tiram da inércia tudo o que for possível pra aproveitar o gancho e o hype do assunto.

Já é perceptptível que a internet está tirando de nós o poder de ver com olhos de ver, mas também, construindo histórias cabíveis somente pro nosso mundo pessoal, que atenda às nossas indignações e aflições, as grandes discussões são hoje sobre micro discussões, uma vez que podemos ter a percepção pra muitas perspectivas mais de perto, de forma mais cirúrgica, por quem vive ela.

Também permitiu saber o que já era pra ser sabido e foi esquecido ou tomou outro formato. O canal escolhido é uma ‘picada de agulha grossa’: pequena demais para causar um dano físico severo, mas com uma dor perceptível e pontual.

Neste sapato apertado, o calo começa a doer. As pessoas começam a ficar exaltadas e os ânimos apodrecem como banana na fruteira em dia quente.

Vejam bem, num tempo como este de agora, em que todas as lutas tomaram frente, voz e vez, que discussões empoeiradas que até então estavam cobertas pra debaixo do tapete, apareceram pra atacar sua rinite. Os guetos foram iluminados mostrando todos que ali estavam escondidos. Só que agora, eles já não tem (tanto?) medo de se mostrarem. Ganharam auto-estima para o fazerem. Reclamaram e reclamam seus espaços, contam sobre suas injustiças, denunciam os abusos de um mundo lidava com problemas de forma equivocada: não falando sobre eles.

A mulher cansou de macho chato, a comunidade lgbt cansou de ser alvo de chacota e estigma, o negro cansou de ser associado a coisas ruins em uma socidade zé ruela, corpos cansaram de tentar se encaixar na visão de terceiros, pais e mães cansaram de perder seus filhos em crimes violentos com desculpas rasas. Enfim, cada partezinha que compõe o todo e até então guardava suas dores pra si (sendo esta colocada sabidamente ou não, num local de esquecimento), começou a pipocar suas frustrações e como determinadas regras da sociedade as incomoda, piora sua vida ou torna ela mais difícil, já que a regra do jogo da vida diz ser por mérito, temos como contraditório seus componentes: Uns poquíssimos bens instruídos contra uma massa esmagadora capenga.

Obviamente que isso é resultado possuidor de mil questões envolvidas: desde educação precária à falta de caráter por opção.

Todo mundo tentando seu lugar num mundo onde democracia é barulho.
De fato, democracia é barulhenta mesmo. Ter que ouvir todo mundo, pensar no que fazer, identificar se é só egoísmo ou direito restringido por alguma lei XYZ, não ser contemplado com igualdade perante a sociedade, são coisas que realmente cansam qualquer um. Só que ela ainda é o caminho pra reduzir os danos que o ser humano é capaz de produzir a si mesmo enquanto espécie. E é pra este caminho que devemos remar, o da justiça. A gente não sabe como fazer justiça até precisar fazê-la, acredite.

O resultado, é o esperado: no meio de discussões sérias, fios e fios de explicação por quem entende, vem junto uma patinação desengonçada de explicações, uma enxurrada de opiniões ignorantes, cagações de regra de gente que mal sabe das coisas, manuais de instrução de obviedades. Enfim. uma dezena de tsunamis de reflexões e reclamações tomaram conta da sua casa, trabalho, do jornal que você lê, a sua caminhadinha na rua, com um único intuito: tirar a sua paz.

E quer saber, é isso mesmo. Quem não é visto, não é lembrado. As pessoas entenderam que reclamar traz resultado. Num mundo onde condenaram tantas pessoas ao esquecimento ou as puxaram pra serem infelizes mesmo se você tiver cheio de grana, ter orgulho de sua existência é o maior trunfo pra uma pessoa e sua melhor ferramenta pra poder encará-lo.

Só que também traz outro fenômeno:

os likes…

E aí meus amigos, é aí que mora o perigo. pois entramos não só na era das reclamações, entramos na era da militância, da denúnicia, do dedo na ferida, aquelas mesmas que a gente insiste em não tratar porque arde igual mertiolate antigo.

Estamos com medo de quê? De outros terem razão enquanto tentamos vencer as coisas no grito? Só tentamos, porque não vencemos, é a pessoa do outro lado é que desiste.

Evoluir dói, e dói pelas certeza que teremos de abdicar, de escolher o certo a ser feito. De perceber quanto tempo passamos abandonando quem amamos sem querer. Machucando a nós mesmos e a outras pessoas simplesmente por não admitir onde erramos, encarar o fato que esquecemos de pensar no outro, talvez pra compensar o sentimento que os esquecidos sempre fomos nós.

A internet tornou-se um terreno querendo pra si o poder de julgar, como também de advogar. E é neste contexto que ela se torna mais perigosa, já que também vivemos a era das notíciais falsas, montadas, propositalmente influenciadas. Ou seja, não cabe à ela este papel, ela pode arruinar algo bonito contruído ao longo de anos, como pode alavancar um corrente de raiva e descontentamento, o que se compara a um esgoto, uma analogia que cabe bem quando ela usada desta forma, em algumas horas.

Ora vejam só, cá estamos novamente confabulando mais do mesmo. Me pergunto se o ser humano não cansa. Porque não é possível que os anos passem e ao invés de percebermos e trazermos tudo o que já evoluímos pra nossa vida cotidiana e poder seguir ainda mais adiante pra um mundo mais justo, somos forçados a pensar de modo primitivo, somos reclamões convictos, ou marinheiros encantados se ouvimos o ‘canto da sereia certo’.

A internet se tornou tão dinâmica e rápida, que já não conseguimos mais ter tempo de pensar sobre o que está sendo dito, a gênese do problema se perde em meio a tantos achismos e colocações novas ou palpites. Esse furacão toma proporções fulgazes, que vêm e vão num piscar de olhos. Isso porque ainda nem chegamos no fenômeno do cancelamento, mas essa é uma conversa que fica pra um próximo post.

Frases antes do fim: a mão da militância: ou você pega ou você perde.




Chaves, Chapolin e o tempo das coisas.

Não sei se souberam, que não só no Brasil, como também no México, as séries de comédia Chaves (em espanhol, Chavo del 8) e  Chapolin (em espanhol não muda a escrita nem pronúncia, é Chapolin mesmo), não serão mais exibidas pela rede de TV aberta (aqui no SBT e lá, na Televisa).

Florinda Meza, a atriz que deu vida à personagem Dona Florinda e foi casada com o criador da série, Roberto Goméz Bolaños, foi questionada sobre este fato e respondeu o seguinte:

Ela segue falando sobre o carinho do público tem com a série e do importante papel que Chespirito tem na cultura mexicana (apelido dado a Roberto Bolaños, referência a um diminutivo de Shakespeare). Me deu um quentinho no coração em saber que ela estava bem e lúcida. E triste pela desvalorização de um trabalho que, com certeza, rendeu boas receitas aos que a transmitiram. Em específico no Brasil, aqui somos uma legião de amantes da série repetida a exaustão e mesmo assim, com um público sendo renovado por décadas.

Entre as respostas, que em sua maioria eram de pessoas recordando momentos, episódios, dizendo o quão eram gratas pela existência da série que marcou epóca e corações. Destoavam alguns outros comentários espinhosos, apontando sobre o conteúdo exibido e as ‘formas’ de se fazer humor que nelas continham: a violência como método de punição, seja de adultos ou crianças ou em ambos, a depreciação de colegas em referência a sua idade, peso ou gênero, omissão perante nessecitados, entre outros.

Ali, já me fez lembrar que alguns amigos na escola tinham pais que não os deixavam assistir tais programas exatamente por esses mesmos motivos, ou seja, não foi só lá e nem só aqui, realmente é algo explícito, mas a roupagem infantil, cenas quase circenses, a inocência e outras qualidades que a série possuia e possui, a gente passava o pano e seguia assistindo.

O que ao meu ver pareciam reclamações bobas, na realidade eram apontamentos sérios.

Você viu mais de uma vez um menino órfão* que, constantemente com fome (e ninguém parecia se importar com este fato), era agredido quando fazia suas peraltices e estimulado a invejar o que outro tinha, Kiko fez isso dezenas de vezes. E tá tudo bem (está?).*Chaves foi abandonado pela mãe em um orfanato e fugiu. Quando chega na vila, é criado por uma mulher que morava no 8 – na numerologia, 8 é meu número astral, nada a ver com assunto mas e daí? – e que depois que ela morre, a própria situação acaba forçando o garoto a se isolar no barril. Palavras do próprio Roberto em 2006.

A rabugenta Florinda que não gostava de gentalhas, mas era caridosa quando na necessidade. Caindo na velha história de que a caridade afaga os corações, mas não faz querer que eles apareçam no mesmo restaurante que você frequenta, de poder ser uma pessoa “boa”, contanto que o outro continue invisível. A caridade como omissão à justiça social.

O desempregado e mal letrado Madruga, cheio dos bicos, que já foi muita coisa e que usava de sua malandragem para subverter sua situação, sempre acabava como um devedor nato.

As tantas e tantas vezes que Seu Barriga e Nhonho eram chamados de gordo, Florinda e Clotilde de velhas, junto a Chiquinha, de feias, Kiko bochechudo, um professor alto de linguica, e por aí ia-se.

No Chapolin, ao dependender dos personagens, essas reproduções de pequenas humilhações e/ou depreciações, também eram presentes.

Chapolin Colorado

O retrato que naquela pequena vila e seus excênctricos moradores ou nos cenários de aventura do frágil, confuso e covarde herói, pudessem haver dezenas de representações da vida real.

E é extramamente doloroso, pra eu, como fã das séries, entender isso em plenitude.

Agora adulto, já entendi e absorvi a mensagem linda que também continha ali de amizade, apoio, inocência, imaginação. Foram tantas tardes os vendo, que já eram de casa.

Pois bem, encaixando no mundo de hoje, de constantes discussões sobre bullying e ataques de qualquer escala, não fosse seu legado, Chaves e Chapolin parecem não caber mais. Pelo menos não de forma indiscriminada ou sem supervisão. Afinal, alguns dos personagens são crianças, o que nos levava a crer que tudo bem, crianças são assim mesmo. E são, esse é problema. Crianças são papagaios espelhados, repetem ao ouvir ser falado ou fazem quando veem sendo feito.

Obviamente que as séries não são casos isolados, quase todas as séries de 2000 pra trás, também compõe a galeria de frases e atitudes não aceitáveis nos dias atuais.

Talvez nem nós saibamos o impacto disso em nossas vidas.

Se “hoje tudo é racismo, homofobia, gordofobia…”, no passado também já era, só seguíamos normalmente nossas vidas sem se importar se aquele conteúdo, uma vez que essa crítica pontual em nossa sociedade não era tão cobrada, impactaria em como nós mais a frente, iríamos ver o mundo e, por que não, naturalizar certas atitudes que nos tornam um pouco mais toscos. Ficamos sim reféns do tempo só que não de uma forma negativa, é entender que ele vai subvertendo e ressiginficando nosso redor para talvez e finalmente, conseguirmos entender de fato o que somos enquanto espécie e enquanto sociedade, como se movimentam os rumos.

Não vou deixar de assistir, nem descartar minha foto que tirei com Edgar Vivár (o ator de Seu Barriga) numa Bienal no Livro. Ou então, me utilizar das piadas vez ou outra. Nem esquecer que o Roberto Bolaños morreu em 2014 na véspera do meu aniversário (28/11). Memórias não são palavras escritas a lápis num caderno para serem apagadas. Estarei seguro que ali existe sim várias problemáticas e sigo alerta à elas.

É um exemplo bobo, mas só vem a confirmar que de fato algumas coisas tem seu tempo, seu momento. Pessoas são assim, destinos e sentimentos são assim, de repente se vão, meio querendo, meio não querendo…

UM APOCALIPSE IMPREVISTO

Este é o primeiro texto do projeto APOCALIPSE IMPREVISTO. Criação de Fabricio Alves, no caso,  eu mesmo.

Já avisando que, por hora, não vai ter nada demais. ¯\_(ツ)_/¯

 

Num ano pândemico, atípico e turbulento muita coisa aconteceu.

Por mais impactante que possa parecer o nome deste projeto. Historicamente, mais do que fogo, dor, vingança e condenação, a palavra apocalipse, provém do grego, na combinação de outras duas palavras que formam o substantivo feminino apokálypsis que quer dizer “revelação”.

Em algum momento todos nós na vida temos inúmeras revelações. De quem somos, o meio que vivemos, quem são as pessoas a nossa volta e como cada parte deste todo impactam em nossos destinos. De como o tempo pode contribuir, como também pode minguar.

Este primeiro texto tem essa função quase de quebra. Estava há tempos sem escrever nada, na correria de dar conta de casa, trabalho, família, namorado, amigos, enfim, uma leva quereres e interpéries que quando se percebe, já está sufocado demais pra projetar alguma coisa.

A contra gosto (e inevitavelmente), o nosso apocalipse imprevisto é o persona non grata de um vírus que se espalhou rapidamente pelo mundo, invisível, relativizado e desacreditado.

O corona vírus como todos sabemos começou lá na grande potência China e casou geral. Mudou a rotina, colocou em dúvida muitas coisas que já pareciam ter respostas, gerou discussões políticas, expôs dezenas de deficiências sociais, enfiou uma máscara na fuça de todo mundo e passamos a nos sentir estranho ao passar álcool em gel em saco de carne moída.

Essa temporada dentro de casa nos obrigou a nos reinvetarmos, pois mesmo que indiretamente, tua vida pode ter continuado sem grandes mudanças, mas só porque ela não é sentida, não siginifica que não está acontecendo. A médio e a longo prazo, ninguém passará ileso.

Já pra mim, a quarentena teve uma cara de férias ultraprolongada, com nuances sabáticas, reflexiva e autoimersiva. A gente não sabe que precisa disso até começar. Me fez perder a noção do tempo de forma negativa e posisitva.

Este miniblog tornou-se possível exatamente aí.

O nome de ‘Apocalipse Imprevisto’ combina muito não só com o ano, mas com a frequência que entrei/entramos, pois assim como pudemos observar, não teve só Corona. Teve avião caindo e partindo ao meio, explosão em posto, explosão em depósito de fogos de artifício, sinais de uma imenente revolução racial, morte do Louro José, cobra naja mordendo traficante brasileiro em Brasília, enfim, teve de um tudo. Tudo dentro de um grande colapso que a cada hora se mostrava a que veio. Revelamos algumas verdades ou simplesmente passamos a admití-las, o que é um passo importante para mudanças mais profundas em nosso modo de pensar e agir com o que vier pela frente…

Inicialmente e ao que parece, precisamos despressionar cabeças confusas ou sobregarregadas. CALMA. isso não quer dizer que estarei aqui falando sobre métodos de reiki ou meditação. O meu método seria mais na base das porradas que a vida dá e nas incríveis (e nas ruins) experiências que ela proporciona, e acho que esse caminho muita gente também passa. Aqui tem voz a militância e pra quem tá se sentindo cansado dela, e até perdido no meio de tanta informação. Presunção de minha parte até achar que possamos enfrentar os monstros juntos? Talvez não.

Como disse no começo, ele ainda é mini. Mini porque ainda não terei muitos recursos pra expandi-lo (lê-se conhecimento técnico sobre edição e nem grana pra pagar alguém pra fazer e talvez tempo).

Mas dedicarei que, semanalmente (quinzenalmente, talvez, quando bater aquele preguicinha), um assunto aleatório será trazido, seja correlacionando com outras coisas como cinema, música ou uma atualidade, como também fazendo analogias desgastantes que podem te levar a lugar nenhum, mas pelo menos, desnuveia tua cabeça, né?

Vai ser uma parte de mim pro mundo, porque essa é a formula que mais e melhor me traduz: observar coisas que não sei como lidar e lapidar as habilidades no processo até conseguir.

Apocalipse imprevisto é o lado B, de um lugar conhecido, mas pouco visitado. Nem tão acadêmico, nem tão achismo. Nem tão céu, nem tão inferno. Um universo particular pra compartilharmos sobre dores e amores, tristezas e alegrias, importâncias e desinteresses, sobre decepção e esperança, sobre armadilhas e escapatórias. Enfim, tudo o que for possível também ser ingrediente daqui. Isso porque, no fim, tudo acaba mesmo, mas vale a passagem.

Frases antes do fim: só cresce quem caminha, pois a sabedoria é a estrada.